Tenossinovite de De Quervain em mães: cuidar sem operar
A dor no lado do polegar ao pegar o bebê no colo ou deslizar o dedo na tela do celular tem nome: tenossinovite de De Quervain. Na maioria dos casos, é possível tratar sem cirurgia — e quanto antes você agir, maiores as chances de recuperação mais rápida.
Por que o pulso dói exatamente aí?
No lado do polegar existe um corredor estreito — chamado de primeiro compartimento extensor — por onde passam dois tendões responsáveis por mover e afastar o polegar. Quando esses tendões são usados repetidamente em movimentos semelhantes, a bainha que os reveste inflama, incha e começa a apertar como uma luva pequena demais.
O resultado é aquela dor pontual, às vezes com edema visível, que piora quando você tenta abrir uma jarra, pegar o bebê pelas axilas ou rolar o feed do Instagram com o polegar.
O nome da condição homenageia o cirurgião suíço Fritz de Quervain, que a descreveu em 1895 — mas ela nunca foi tão comum quanto é hoje, na era dos smartphones e do aleitamento materno prolongado no celular na mão.
O gesto que ninguém avisa que machuca: pegar o bebê no colo
Existe um padrão de movimento que aparece repetidamente em mães de bebês pequenos: abrir a mão em leque, colocar os polegares embaixo das axilas do bebê e erguê-lo. Parece simples, mas esse gesto combina extensão do pulso com abdução forçada do polegar — exatamente a combinação que mais sobrecarrega os tendões de De Quervain.
Amamentar segurando o bebê com uma só mão, carregar o porta-bebê, tirar o recém-nascido do berço inclinado e até trocar fraldas com o bebê se debatendo são outros momentos críticos.
Como adaptar esses gestos no dia a dia
- Ao levantar o bebê: use os quatro dedos como suporte principal por baixo das coxas, em vez de apoiar o peso nos polegares.
- Ao amamentar: apoie o bebê num travesseiro de amamentação para reduzir o esforço dos pulsos.
- Ao tirar do berço: incline-se para perto e deslize o bebê até o seu tórax antes de erguê-lo, encurtando o braço de alavanca.
- Ao carregar no colo: alterne os lados e apoie o peso no antebraço, não na mão aberta.
Essas adaptações não eliminam o risco por completo, mas reduzem bastante a carga acumulada nos tendões ao longo do dia.
O celular também tem parte nisso — e muito
Scrollar o feed com o polegar, digitar mensagens longas no WhatsApp com uma mão só, segurar o telefone em extensão enquanto assiste a vídeos: esses hábitos somam horas de sobrecarga diária nos mesmos tendões.
Para mães que estão acordadas de madrugada amamentando com o celular na mão, o risco é ainda maior: a postura costuma ser torta, a mão fica estática por longos períodos e a fadiga reduz a percepção de dor — que só aparece com força horas depois.
Ajustes simples no uso do celular
- Use suporte de anel ou pop socket para distribuir o peso do aparelho pelos quatro dedos, poupando o polegar.
- Prefira digitar com os dois polegares em vez de um só.
- Ative o comando de voz para mensagens quando estiver amamentando.
- Ajuste o tamanho da fonte para não precisar aproximar o aparelho e tensionar o pulso.
- Faça pausas de 20 minutos sempre que possível.
Nenhum desses ajustes substitui a avaliação de um especialista, mas podem ajudar a não piorar uma inflamação que já está começando.
Tratamento sem cirurgia: o que a medicina oferece
A boa notícia é que a grande maioria dos casos de De Quervain responde bem ao tratamento conservador — ou seja, sem passar pela sala de cirurgia. O segredo está em começar cedo e seguir o plano até o fim.
Órtese (tala) de repouso
A imobilização do polegar e do punho com uma órtese é geralmente o primeiro passo. Ela posiciona a articulação em repouso, reduz o atrito dos tendões inflamados e dá espaço para a bainha desinflamar. Muitas mulheres relatam alívio já nas primeiras semanas de uso consistente.
Fisioterapia e terapia ocupacional
O fisioterapeuta pode usar recursos como ultrassom terapêutico, laser e exercícios de deslizamento de tendão para recuperar a mobilidade sem agravar a inflamação. A terapia ocupacional ajuda a reorganizar os gestos do dia a dia — inclusive os cuidados com o bebê — de forma menos lesiva.
Infiltração com corticosteroide
Quando a dor é intensa ou não cede com repouso e fisioterapia, o médico pode indicar uma infiltração local com corticosteroide. O procedimento é feito no consultório, é relativamente rápido e costuma trazer alívio expressivo. Não é adequado para todas as situações — a indicação depende de avaliação individual.
Medicamentos anti-inflamatórios
O uso de anti-inflamatórios por via oral pode ser indicado em fases agudas, sempre com prescrição médica e atenção redobrada para mães que estão amamentando, já que nem todos os medicamentos são compatíveis com a lactação.
A cirurgia existe e é eficaz, mas fica reservada para casos que não responderam a nenhuma das alternativas anteriores após tratamento adequado e bem conduzido. Ela não é o caminho obrigatório — é a última etapa de uma escada que começa bem antes.
Quando procurar um cirurgião de mão — mesmo sem querer operar
Muita gente adia a consulta por achar que o cirurgião de mão só vai querer operar. Esse é um engano comum. O especialista em cirurgia da mão é, antes de tudo, um médico treinado para evitar a cirurgia sempre que possível — e para indicá-la com critério quando for realmente necessária.
Alguns sinais de que você não deve esperar mais para buscar avaliação:
- Dor que acorda você à noite ou impede de carregar o bebê.
- Inchaço visível ou sensação de estralo no lado do polegar.
- Dor que persiste há mais de duas semanas mesmo com repouso.
- Formigamento ou fraqueza no polegar e indicador.
- Piora progressiva apesar dos ajustes posturais.
A Dra. Rosana Endo atende casos de De Quervain com foco em encontrar o tratamento mais adequado para cada momento da vida da paciente — inclusive para mães em fase de amamentação, que precisam de orientações específicas sobre medicamentos e imobilização.
Se você se identificou com algum desses sinais, agende uma avaliação. O diagnóstico preciso muda tudo no planejamento do tratamento.
Perguntas frequentes
A tenossinovite de De Quervain passa sozinha sem tratamento?
Em casos muito leves e com mudança imediata dos hábitos, pode haver melhora espontânea. Porém, quando a causa persiste — como carregar o bebê todos os dias e usar o celular por horas — a inflamação tende a se cronificar e se torna mais difícil de tratar. O ideal é não esperar para buscar orientação médica.
Posso usar a órtese e continuar amamentando normalmente?
Na maioria dos casos, sim. A órtese imobiliza o polegar e o punho, mas não impede que você segure o bebê com adaptações posturais. Um terapeuta ocupacional ou fisioterapeuta pode orientar as melhores posições para amamentar usando a tala sem comprometer o conforto do bebê.
A infiltração de corticoide é indicada para quem amamenta?
Essa é uma decisão que depende de avaliação médica individual. Em geral, a quantidade de corticosteroide usada numa infiltração local é pequena e o risco de passagem para o leite materno é considerado baixo — mas a indicação precisa ser feita caso a caso pelo médico que acompanha você.
Quanto tempo leva o tratamento conservador da De Quervain?
Varia bastante de pessoa para pessoa. Alguns casos respondem em quatro a seis semanas com uso consistente da órtese e fisioterapia. Outros podem levar alguns meses, especialmente quando a exposição ao movimento agressor continua. Por isso, o acompanhamento médico regular é importante para ajustar o plano conforme a evolução.
O celular realmente pode causar ou piorar a De Quervain?
Sim. O movimento repetitivo do polegar ao rolar a tela e digitar, combinado com a posição estática de segurar o aparelho, sobrecarrega exatamente os tendões envolvidos na De Quervain. Quando somado ao esforço de carregar o bebê, o risco aumenta de forma significativa. Adaptar o uso do celular faz parte do tratamento e da prevenção.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e o tratamento são individualizados e dependem de avaliação presencial.
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